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Análise da concepção e comportamento do sistema de aproveitamento de água de chuva em operação na UFMT, campus Cuiabá

Resumo

A problemática da escassez hídrica exige que medidas de conservação dos recursos hídricos sejam mais e melhor implementadas, de maneira que promovam a sustentabilidade do ambiente em que se inserem. Nesse contexto as Instituições de ensino superior (IES) tem papel fundamental, devendo servir como exemplo de responsabilidade com o meio ambiente. Em busca de assumir essa responsabilidade e de promover e potencializar o desenvolvimento sustentável, a Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Cuiabá, procura estabelecer e diagnosticar iniciativas sustentáveis para conservação e racionalização da água. Dentre os pontos a serem diagnosticados está o comportamento do sistema piloto de uso de aguas pluviais na Faculdade de Economia (FE). O sistema é composto por cobertura de fibro cimento, calhas metálicas, condutores verticais em PVC, reservatório inferior com volume de 20m³, recalque automatizado, e dois reservatórios de 3m³ (um de água de chuva e um de água potável) para o abastecimento de bacias sanitárias. Sendo assim, este trabalho visa analisar o comportamento desse sistema por meio de indicadores de desempenho, a partir da definição do potencial aproveitável de chuva, do monitoramento do consumo de água no prédio da FE e da avaliação da qualidade dessa água no reservatório no Faculdade de Economia para fins não potáveis. Para isso, foram realizadas analises de pH, turbidez, cor, condutividade elétrica, DBO, DQO, dureza, sólidos totais e solúveis, coliformes totais e Escherichia coli, além da leitura de dados dos hidrômetros de água potável, e do hidrômetro de água da chuva. O potencial de aproveitamento de água de chuva foi determinado com base nos índices pluviométricos de Cuiabá – MT seguindo o recomendado pela NBR -15.527/2007. Dessa forma, a análise dos índices pluviométricos revelou uma grande concentração do volume precipitado em um único trimestre do ano (67,6% em 2015), e um trimestre seco com um intervalo de até 31 dias sem chuva. Através do monitoramento do consumo de água constatou-se que o sistema atende a 21% do total consumido no prédio da FE sendo 62% do volume consumido apenas nas bacias sanitárias. A análise das variáveis físico-químicas e microbiológicos indicou um comprometimento da qualidade da água sobretudo quanto as variáveis que se associam a presença de sólidos e impurezas oriundas da lavagem do telhado como resultado da não observância de alguns aspectos recomendados pela NBR 15527/2007. O retorno do investimento ocorre em um período de mais de 23 anos. A avaliação dos resultados forneceu subsídio a proposições que contribuam com a elaboração das metas do Plano de Água da UFMT.

Introdução

A escassez hídrica é uma problemática eminente nos dias atuais e tem impactado os mananciais que suprem os sistemas de abastecimento das cidades. A sustentabilidade desses sistemas, passa pela compreensão da complexa relação existente entre as questões técnicas, econômicas, sociais, culturais e ambientais. Nesse contexto o World Water Assessment Programme-WWAP, estima que até o ano de 2025 mais de 3 bilhões de pessoas viverão em países onde os recursos hídricos estarão sob grande pressão.

A água é um recurso natural renovável, essencial à vida e ao equilíbrio ecológico de todos os ecossistemas. No entanto, esse recurso é finito, e com a maior parte da população vivendo em perímetros urbanos, garantir água em qualidade e quantidade é um desafio.

O aumento das populações humanas e a expansão das atividades agrícolas e industriais, são grandes responsáveis pela falta de água nas torneiras, mas, além disso, concordando com Whately e Hercowiz (2008), o consumo irresponsável e a poluição dos mananciais, também estão entre as principais causas dessa escassez.

O resultado desse, e de outros cenários, gera um debate em torno dos impactos ambientais e do comprometimento da qualidade de vida na Terra e o tema sustentabilidade chegou ao topo das prioridades nas discussões de diversos âmbitos. Assim, as Instituições de Ensino Superior (IES) têm papel fundamental para esta priorização, uma vez que sua atuação, e significativa produção científica, lhes conferem expectativas quanto às posturas que adotam.

As IES devem ser modelo de comprometimento com o meio ambiente, uma vez que se comparam a pequenos núcleos urbanos que integram atividades de ensino, pesquisa, extensão e outras atividades indiretamente envolvidas, além de demandar infraestrutura básica, redes de abastecimento de água e energia, redes de saneamento e coleta de águas pluviais e vias de acesso (TAUCHEN e BRANDLI, 2006).

Efetivar práticas sustentáveis é obrigatório à Administração Pública Federal Direta, Autárquica, Fundacional e nas Empresas Estatais Dependentes, e devem ser descritas em um Plano de Logística Sustentável (PLS), segundo as regras da Instrução Normativa SLTI/MPOG (Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão) nº10, de 12 de novembro de 2012 (IN 10/2012). A IN nº 10/2012 é uma ferramenta de planejamento com objetivos e responsabilidades definidas que permitirá à Universidade estabelecer práticas de sustentabilidade e otimização e racionalização de gastos e processos.

Dentre os temas abordados nessa Normativa destaca-se no Artigo 8º práticas de sustentabilidade e racionalização da água. Diante dos episódios de crise no abastecimento de água e da importância da discussão acerca da atuação e responsabilidades das IES, com seu papel no desenvolvimento com sustentabilidade, a discussão ainda se faz presente provocando diversas interrogações: A universidade está preparada para atender as expectativas da população em relação à sua atuação? Quais as dificuldades encontradas para pôr em prática uma gestão interna dos recursos hídricos? Como garantir que o que se ensina e se pratica na universidade se estenda além dos seus limites físicos e contribua para a sociedade?

Questões como estas implicam na realização de um minucioso trabalho de diagnóstico que contribua na implementação de medidas sustentáveis e exemplares. O levantamento dessas informações reforça e ajuda a compreender a importância da gestão da sustentabilidade nas universidades, e fornece subsídios para extrapolação, através de analogias, de boas iniciativas acerca da efetivação da sustentabilidade, além de identificar problemas e dificuldades a serem superados pelas IES.

A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) está em constante processo de mudança e expansão; novos cursos vão sendo criados e com isso aumenta o número de alunos, professores, corpo administrativo e também de novas edificações. Este quadro mostra que a demanda por água no campus aumenta e os novos prédios nem sempre atendem requisitos de sustentabilidade. Além disso os alunos, não só não trazem uma cultura de consumo racional de água, como também não a encontram enraizada na universidade.

Neste cenário a UFMT desenvolve seu PLS, buscando diagnosticar aspectos estruturais do campus, atividades e processos desenvolvidos, além de levantar práticas de sustentabilidade já efetivadas.

As iniciativas já encaminhadas nessa conjuntura incluem o trabalho de dissertação de Silva (2015), que diagnosticou o sistema de abastecimento de água do campus Cuiabá UFMT em Cuiabá para permitir a definição de um novo projeto com base no conceito de uso racional de água, utilizando ações tecnológicas e medidas de conservação. O diagnóstico culminou no inventário das peças hidrosanitárias do campus, na identificação de desperdícios, na determinação do consumo per capita (60,72 l/hab.dia), e no levantamento da capacidade de reservação instalada de 1.988,20 m³ de água.

Dentre os pontos a serem diagnosticados neste trabalho está o sistema piloto de uso de águas pluviais existente na Faculdade de Economia – FE. A partir da análise desse sistema é possível avaliar a viabilidade técnica, econômica e social de se utilizar água de chuva como fonte alternativa para atender à Faculdade. Para isso, alguns questionamentos nortearam o desenvolvimento deste estudo, tais como: As condições climáticas se mostram viáveis? O sistema funciona adequadamente a ponto de ser replicado em outras instalações do campus? É possível propor novos usos para esse recurso? A quantidade de água de chuva utilizada representa uma economia significativa?

As respostas a essas perguntas podem ser obtidas por meio da utilização de Indicadores que possam sintetizar as condições ambientais do consumo e da qualidade da água, permitindo avaliar, comparativamente, o desempenho do sistema. Assim, o sistema já implantado de aproveitamento de águas de chuva na UFMT deve ser estudado bem como deve ser avaliada a possibilidade de reprodução do mesmo, corrigindo falhas e melhorando sua eficiência.

Deste modo, a partir desta análise qualitativa e quantitativa do sistema é possível contribuir com a gestão da sustentabilidade na UFMT, em prol de um ambiente que sirva de laboratório para alternativas aos problemas de falta de água no campus e em outras atividades.

Sendo assim, esta pesquisa analisou o comportamento do sistema de aproveitamento de águas pluviais em operação da Faculdade de Economia do campus Cuiabá por meio de indicadores de desempenho, a partir da definição do potencial aproveitável de chuva para fins não potáveis, do monitoramento do consumo de água no prédio da FE e da avaliação da qualidade dessa água no reservatório.

Autora: Juliana Gervasio Nunes.

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