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Estudo da capacidade de infiltração em sistemas de recarga artificial de aquíferos contaminados no Distrito Federal

Publicado em 12/06/2017 às 15:51:00

Resumo

O presente projeto de pesquisa aplicada tem os seguintes objetivos 1) avaliar a capacidade máxima de infiltração em sistemas de recarga artificial de aquíferos em áreas urbanas, 2) quantificar os volumes médios passíveis de recarga em áreas de condomínios horizontais do Distrito Federal, 3) estimar o tempo necessário para diluição de cargas contaminantes e 4) verificar a extensão das plumas de contaminação na região do Setor Habitacional Jardim Botânico. A metodologia consistiu no diagnóstico da área e seu entorno imediato, ensaios hidráulicos com injeção de água em caixas de infiltração, análise in situ da qualidade das águas coletadas em poços e nascentes. Dois sistemas de recarga artificial foram construídos: sistema de Recarga Piloto I (no Condomínio San Diego) e Sistema de Recarga Piloto II (Condomínio Privê Lago Norte), ambos visando à recarga de aquíferos fraturados, respectivamente, Subsistema R3/Q3 e Subsistema A. Os resultados obtidos mostram que: 1) Os sistemas de recarga artificial propostos apresentam alta efetividade para induzir a infiltração de águas de chuvas coletadas nas coberturas de edificações em condomínios horizontais; 2) Os volumes potenciais de infiltração, considerando diferentes cenários, são relevantes e podem auxiliar na remediação in situ de aquíferos contaminados em prazos variáveis entre 5 e 15 anos dependendo do grau de adesão da população e do meio físico local; 3) A eficiência da recarga artificial pode ser definida pela capacidade máxima de infiltração nos diferentes sistemas de recarga e varia conforme os diferentes controles do meio físico local, 4) A região do Condomínio San Diego já tem aquíferos contaminados pela infiltração dos efluentes, constatação feita pelo monitoramento da qualidade das águas dos poços de abastecimento e pela presença de nitrato e amônia nas águas das nascentes que são exutórios destes aquíferos. As recomendações para continuidade da pesquisa incluem: 1) instalação de um número maior de sistemas de recarga piloto, nas proximidades de outros poços tubulares com contaminação comprovada, para se ter maior controle da dispersão e migração das águas infiltradas; 2) desenvolvimento de estudo geofísico previamente à instalação das caixas de recarga, de forma a se ter maior controle da escolha dos pontos para injeção de água de precipitação; 3) realização de estudos de isótopos estáveis para melhor controle dos tempos de chegada das águas de recarga artificial; 4) operação de sistemas de recarga artificial alimentado por águas de precipitação e realização do monitoramento por pelo menos dois anos hidrológicos consecutivos; 5) após o início de implantação da recarga artificial de forma mais ampla as nascentes da borda da chapada deverão ser o principal alvo de monitoramento para verificação da efetividade da ação.

Introdução

A população do DF saltou de pouco mais de 64 mil habitantes no ano de sua inauguração para cerca de 2,5 milhões de habitantes em 2007, o que representa um aumento de aproximadamente 3.700%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em seu relatório – “Brasília: Impactos Econômicos da Capital no Centro-Oeste e no País”.

Ao longo de, pelo menos duas décadas, a ocupação de grande parte do Distrito Federal se deu a revelia das normas legais. O aumento do crescimento demográfico gerou uma demanda habitacional reprimida para a população com renda média a alta que aliada à ausência de políticas públicas impulsionaram a implantação de condomínios irregulares no Distrito Federal.

A implantação desses condomínios residenciais edificados fora do alcance das redes de coleta e tratamento da Caesb com ocupações de elevada densidade humana que desde os anos 1990 infiltram os efluentes na zona não saturada dos aquíferos levou à degradação dos mananciais superficiais e subterrâneos o que exige instrumentos de gestão que possam melhorar a disponibilidade e a qualidade dos recursos hídricos.

O fracionamento do terreno natural e a efetiva ocupação urbana geram uma série de cargas potenciais para contaminação das águas subterrâneas com destaque para: efluentes domésticos em sistema de saneamento in situ, chorume derivado da decomposição de resíduos sólidos, infiltração de hidrocarbonetos em postos de combustível e serviços, resíduos químicos em áreas industriais, dentre outros.

Historicamente a região sempre utilizou a alternativa de esgotamento sanitário in situ. Apenas nos últimos anos a Companhia de Saneamento Ambiental de Brasília CAESB iniciou a implantação de redes de coleta e emissários para interligação com a Estação de Tratamento de Esgotos – ETE de São Sebastião, localizada a oeste.

As águas subterrâneas, embora sejam menos vulneráveis do que as superficiais podem ser afetadas por contaminações oriundas de atividades antrópicas, agrícolas e industriais. Em áreas urbanas a carga poluidora de esgotos domésticos constitui-se em um importante fator de contaminação das águas subterrâneas (Vieira et al. 2013).

Dados de monitoramento de análises químicas realizados em poços tubulares operados pela CAESB mostram que a poligonal da Região Administrativa Jardim Botânico já apresenta problema de qualidade das águas subterrâneas devido ao sistema de saneamento in situ que foi implantado desde o início da ocupação.

Resultados de análises químicas de águas de poços tubulares profundos operados pela CAESB (amostragem em julho / agosto de 2007) apresentam valores de alerta para nitrato, cloro e Fe total em poços de condomínios da região do Setor Habitacional Jardim Botânico. Resultados de pH e coliformes totais apresentam valores acima do máximo permissível em alguns poços da região.

No Distrito Federal a contaminação das águas freáticas e subterrâneas profundas já foi constatada em diferentes trabalhos (ex. Zoby, 1999), sendo as fontes difusas na forma de fossas sépticas e negras, as mais comuns.

Autora: Maria Dulcinea Xavier Nunes.

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