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Disposição de lodo de ETE de indústria alimentícia no solo: efeitos na água subterrânea

Publicado em 31/08/2017 às 11:45:28

Resumo

O lodo proveniente de estações de tratamento de efluentes é rico em nutrientes e possui alto teor de matéria orgânica, podendo desempenhar importante papel no condicionamento do solo e na produção agrícola. Entretanto, é importante que sua utilização no solo seja feita de maneira controlada devido à possibilidade da presença de substâncias poluentes e contaminantes. O presente trabalho objetivou analisar os efeitos da aplicação em escala real de lodo de estação de tratamento de efluentes em uma área de latossolo cultivado com eucalipto (Eucalyptus sp.) na água subterrânea. Os resultados indicam concentrações maiores de bário e zinco na água subterrânea sob influência da aplicação de lodo em relação ao poço testemunha, mas não está claro se a diferença observada está relacionada à disposição do resíduo no solo. Não foram verificadas alterações quanto às substâncias orgânicas potencialmente tóxicas e aos indicadores microbiológicos. Todos os parâmetros analisados na água subterrânea atendem ao padrão de qualidade determinado na Resolução CONAMA no420/2009 e ao padrão de potabilidade definido na Portaria MS no 2914/2011.

Introdução

Uma das principais fontes de poluição dos rios no Brasil é o despejo de efluentes industriais e domésticos sem o tratamento prévio adequado. As estações de tratamento de efluentes (ETEs) têm como objetivo a remoção dos poluentes, nutrientes e matéria orgânica presentes nas águas residuárias antes que retornem ao meio ambiente por meio de despejo nos corpos d’água. Além do efluente tratado, as ETEs geram como subproduto um resíduo de natureza predominantemente orgânica denominado lodo. O lodo produzido em uma ETE corresponde a cerca de 1 a 2% do volume do efluente tratado, entretanto o tratamento e a disposi- ção final deste resíduo representam de 30 a 50% do custo operacional da estação (Sanepar, 1999). Para que um sistema de tratamento alcance plenamente seus objetivos, além de sua correta operação em termos de eficiência de remoção de poluentes e de carga orgânica, é fundamental que o lodo gerado seja corretamente disposto.

Uma alternativa de manejo do lodo é a aplicação no solo. O lodo biológico é rico em nutrientes e possui alto teor de matéria orgânica, por isso sua aplicação como condicionador pode aumentar a qualidade física e química do solo. As características do lodo gerado em ETEs são muito variáveis, pois dependem diretamente origem do efluente bruto e do tipo do tratamento a que é submetido. O lodo de esgoto sanitário tende a ter alta concentração de patógenos (Silva et al., 2001) e pode apresentar também contaminantes químicos (Saito, 2007; Smith, 2009). Por outro lado, as características de lodos de ETEs industriais dependem do tipo de processo produtivo e insumos utilizados, sendo também fontes potenciais de contaminação.

Em alguns países, a aplicação de lodo no solo ocorre há mais de vinte anos em escala operacional com a destinação de grande parte do lodo gerado para plantações florestais (Lira et al., 2008) e esta prática é mais recente no Brasil (Saito, 2007). Existem vários trabalhos na literatura que avaliaram, sob condições específicas e diferentes, os impactos ambientais positivos e negativos derivados da disposição do lodo no solo. Os impactos positivos da disposição de resíduos no solo referem-se ao aumento da produtividade da cultura (Lira et al., 2008; Silva et al., 2008; Mingorance et al., 2014; Nascimento et al., 2004; Méndez-Contreras et al., 2009; Paiva et al., 2009; Fuess & Garcia, 2014), o aumento da capacidade de troca catiônica e da disponibilidade de nutrientes (Unal & Katkat, 2009; Asik et al., 2015 Mingorance et al., 2014; Nascimento et al., 2004; Fuess & Garcia, 2014), o aumento do poder de retenção de água do solo e a elevação do pH (Brito et al., 2013; Fuess & Garcia, 2014), a melhora da estrutura física do solo e o aumento e da atividade microbiana (Mingorance et al., 2014; Fuess & Garcia, 2014), enquanto a salinização dos solos (Fuess & Garcia, 2014), a contaminação de águas subterrâneas (Dynia et al., 2006; Harrison et al., 1994; Fuess & Garcia, 2014) e o acúmulo de metais no solo (Silva et al., 2001; Asik et al., 2015; Silva et al., 2006) e na cultura (Silva et al., 2006) são enumerados como os principais impactos negativos.

Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar os efeitos da disposição, em escala real, de lodo de ETE de uma indústria do ramo alimentício no solo, sobretudo os impactos ambientais causados na água subterrânea.

Autores: Ana Carolina Amaral PEREIRA e Marcelo Loureiro GARCIA.

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