Biblioteca

Eficiência na remoção de carga orgânica e nutrientes de um ecossistema engenheirado para tratamento descentralizado de efluentes domésticos – Ilha Grande, RJ

Resumo

Ainda hoje no Brasil, um alto percentual da população e até comunidades inteiras, não tem acesso a um sistema de tratamento de esgoto centralizado, sendo comum o uso das fossas sépticas e/ou sumidouros. Na maioria dos casos, os esgotos são lançados in natura diretamente nos corpos hídricos. Com o objetivo de oferecer uma alternativa tecnológica de baixo custo de implantação e operação com vistas à minimização dos impactos ambientais, e em atendimento a pequenas comunidades isoladas, o presente projeto desenvolveu um sistema compacto de tratamento de esgoto domiciliar, denominado Ecossistema Engenheirado (EE), para pequenos geradores. Este sistema foi instalado e vem sendo operado há 25 meses no Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável – CEADS/UERJ. Na primeira etapa (EE1), o sistema utilizou tecnologias convencionais como fossa séptica, filtro aerado submerso e decantador secundário, combinados com tanques vegetados (wetlands). Na segunda etapa (EE2), o sistema passou por modificações como o melhoramento da aeração no filtro aerado submerso e uma substituição do decantador secundário por um filtro anóxico. Com isso, o sistema passou a apresentar um ganho maior de eficiência na remoção das cargas orgânicas e de nutrientes. Os resultados obtidos indicam que o sistema foi mais eficiente na remoção nesta nova configuração, com resultados significativamente diferentes para a maioria dos parâmetros analisados, apresentando as seguintes taxas de remoção: 89,8% (Nitrito); 91,8% (Nitrato); 82,7% (N amoniacal); 92,9% (DQO); e 67,6% (fósforo total). Estes resultados mostram que após as modificações no EE, este apresentou uma evolução e garantiu melhores condições para uma maior remoção das cargas poluidoras por processos de oxidação biológica da matéria orgânica, e às reações de nitrificação/desnitrificação tendo como resultante, um efluente pobre em nutrientes e matéria orgânica.

Introdução

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 5.564 municípios, dentre os quais 3.069 municípios (55,1%) possuem redes públicas de coleta de esgoto, e destes, somente 1.587 municípios (51,7%) possuem algum tipo de tratamento do esgoto coletado (IBGE, 2008). O percentual de todo esgoto coletado e tratado no Brasil corresponde a 28,5 % (IBGE, 2008).

Dos 3.069 municípios que possuem serviço de esgotamento sanitário por rede coletora, 48,3% (1.482) despejam o esgoto coletado sem tratamento, in natura, em algum tipo de corpo receptor. Em 73,5% dos casos (1.597 municípios) o corpo receptor são rios e corpos hídricos locais. Em 437 municípios a água é usada para irrigação, em 285 é usada para abastecimento público de água e em 212 para recreação (IBGE, 2008).

O lançamento de cargas orgânicas e nutrientes de forma contínua está diretamente associado a processos de eutrofização de rios e lagos (corpos lóticos e lênticos) (Philippi Jr., 2005). A eutrofização pode ser definida como sendo um processo acelerado de crescimento de algas e macrófitas, sendo característica as superfícies extremamente verdes e/ou recobertas de plantas enraizadas e flutuantes. Essa grande quantidade de algas e o excesso de plantas rapidamente alteram a qualidade da água, seja através de sua degradação, ou através de produtos que causam sabor, odor, toxinas e turbidez elevada (Costa et al., 2003).

Os sistemas de tratamento de esgoto, denominados Ecossistemas Engenheirados, utilizam tecnologias do tratamento convencional como fossa séptica e filtros aerados submersos com meio suporte, combinados com tanques vegetados e sistemas alagados ou wetlands (Kavanagh & Keller, 2007), promovendo um tratamento mais completo e eficaz, unindo os três tipos de tratamento (primário, secundário e terciário) em um só sistema (Salomão, 2010).

A grande versatilidade dos Ecossistemas Engenheirados (EE), permite que estes sejam construídos conforme as necessidades locais, além de apresentarem vantagens como baixo custo de implantação, tecnologia simples, pouca necessidade de manutenção, baixo consumo de energia e grande capacidade de remoção dos nutrientes e cargas orgânicas (Sooknah & Wilkie, 2004; Kavanagh & Keller, 2007). Outra vantagem do uso desses EE é que estes podem agregar valor estético, mantendo um ambiente esteticamente agradável e desvinculando a poluição visual do tratamento de esgoto (Brix, 1994). Tais vantagens sugerem que estes EE sejam utilizados em pequenas comunidades, vilas, pousadas que enfrentem problemas com a coleta e o tratamento de esgoto (Salomão, 2010).

Este trabalho teve como objetivo avaliar o desempenho de um sistema descentralizado e compacto de tratamento de esgoto doméstico baseado no conceito de Ecossistema Engenheirado, antes e depois das modificações introduzidas no sistema de aeração e com a substituição do decantador secundário superdimensionado por um filtro anóxico de fluxo ascendente, visando maior eficiência do sistema, na remoção da carga orgânica e nutrientes.

Autores: André Luís de Sá Salomão; Marcia Marques; Raul Gonçalves Severo; Marco Tadeu Gomes Vianna e Odir Clécio Roque da Cruz.

remocao-organica